Espírito coletivo | Capítulo 1

Uma casa de concreto onde os espaços se conversam e todos são bem-vindos

Uma casa e todas as memórias que ela guarda não podem ser resumidas de uma vez só, então por aqui fazemos diferente. Ao invés de concentrar todos os detalhes e fotos em uma única matéria, criamos pequenos capítulos para que você possa curtir essa visita durante vários dias. É só acompanhar a ordem pelo título dos posts e apreciar o passeio sem se preocupar com o relógio.

A casa do Paulo Filisetti não é como outra qualquer. Sua arquitetura é inovadora e traz um misto de épocas, porém o que a faz ser tão especial é sua vocação para a coletividade. Desde que o imóvel no Sumaré foi adquirido pela família em 1983, essas paredes já testemunharam muitos encontros e abrigaram gente do mundo todo. É que o endereço sempre atraiu pessoas criativas, como atores, músicos ou fotógrafos, além de turistas que se hospedam em quartos amplos com jeito de loft desde o ano passado. Agora ao invés de “só” casa, o espaço funciona como uma pousada alternativa, mas antes de falar mais sobre como ele está hoje, vamos voltar ao começo de tudo?

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Erguida nos anos 30, a construção foi encomendada por um maestro da cidade. Aliás, a planta original da prefeitura ainda se refere aos cômodos dos fundos como “sala de instrumentos” ou “sala de coro”. Era ali que o primeiro morador se reunia com parte da orquestra para os ensaios, o que prova que a alma do lugar sempre esteve ligada à arte. Em quase oito décadas de história a estrutura passou por diversas modificações, porém a fachada e o corpo principal tiveram muitos dos detalhes preservados ou restaurados, como as janelas do jardim de inverno ou as colunas do pequeno pátio.

Arquiteto e entusiasta da arte popular brasileira, o pai de Paulo enxergou o potencial daquela simpática casinha em frente a uma praça e percebeu que ali teria um bom recomeço ao lado de seus dois filhos. O que ainda não sabia é que morar em um imóvel tão inovador e estar em contato com esse universo despertaria em Paulo o interesse pela mesma profissão, então essa acabou sendo uma das principais heranças que ele deixou. Quando estava com 30 anos e já formado, o filho se mudou para trilhar os próprios caminhos e decidiu alugar a casa da frente. Mais de dez anos se passaram até que ele voltasse.

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Em 2012 Paulo comprou a parte do irmão e começou uma grande obra pensando em vender a propriedade no futuro. Na verdade antes disso apareceram diversos compradores, mas a maioria tinha planos de reformar a construção de forma tão agressiva que ele achou melhor assumir o projeto para poder transformar os ambientes e criar uma versão com sua própria assinatura – assim o passado seria devidamente preservado. Se era para alguém mexer, que fosse ele. Além disso, quando se é o arquiteto e o próprio cliente ao mesmo tempo, a liberdade de escolha é total: “Não preciso explicar para mim mesmo os motivos porque quis fazer assim ou assado”.

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A cozinha foi ampliada e virou o epicentro de tudo – é ali que os hóspedes se reúnem para o café da manhã ou para socializar. Os dormitórios existentes também foram modificados e agora formam três suítes devidamente isoladas para garantir privacidade a quem precisa. Divididos em pavimentos diferentes, os cômodos se relacionam através de aberturas estratégicas ou de pequenas áreas verdes, como o jardim do segundo andar ou a cobertura verde próxima ao telhado original. Pérgolas de madeira e vigas metálicas dialogam com os traços um tanto românticos da década de 30, chegando a um resultado que surpreende pela harmonia entre elementos.

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Seja pelos turistas que descobrem o endereço através do site Airbnb ou mesmo pelos eventos que acontecem ali de vez em quando, o imóvel é um vaivém de pessoas e experiências. O Paulo ama essa interação e diz que para alguém com a sua profissão é um retorno muito grande ver os espaços sendo curtidos e descobertos aos poucos. “Quando projeto e construo assim, sem cliente, a arquitetura é quem manda e vai se definindo. É como se eu a interpretasse e viabilizasse toda essa expressão que ela quer passar”. Sim, a casa fala e o Paulo entende.

É impossível contar essa história sem falar dos móveis lindos da família e de outros pontos do projeto, então volta aqui quarta-feira para conferir o segundo capítulo e espiar mais.

Continua-final

Fotos por Rafaela Paoli

Deixe seu comentário 8 Comentários

  1. Estava aqui escrevendo como gosto de espaços com alma quando me dei conta e subi a tela rapidinho pra conferir e (claro) era esse o slogan do blog. Mais perfeito impossível, pois é isso mesmo que sinto ao passar por cada post cheio de vida, de encanto, de arte, de alma. O Histórias de Casa foi a mais grata surpresa dos últimos tempos pra mim, me enche os olhos de alegria e o coração de esperança em pessoas que pensam como eu, que veem a alma na casa e a entendem. Lindo post. Emocionada.

    Agora, e a ansiedade gigantesca pela espera do próximo capítulo, heim?

    Beijos, e parabéns pela riqueza desse blog!

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    • Oi Nine, tudo bom?
      Nossa, amamos o seu comentário. Ficamos realmente emocionadas e felizes em saber que o carinho que a gente tem por esse projeto está sendo transmitido através das matérias – é incrível saber que as pessoas percebem nossa dedicação e a vontade de fazer algo diferente.
      Esperamos que você goste do segundo capítulo e dos novos que virão… estão bem legais <3

      Beijos e super obrigada! Você nos inspirou mais ainda…

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  2. Eu estou encantadissima com esse blog.
    Sou arquiteta e confesso que muitas vezes me vejo frustrada na concepção de alguma obra de “interiores” quando nos deparamos com clientes que almejam apenas o que aparece na mídia, incorporando-lhes o luxo, desnecessário, muitas vezes.
    Casa com cara de casa, com alma e essência, é o que faz você querer voltar, curtir, se sentir segura.
    Parabéns meninas pelas descobertas, pelo texto envolvente e pelo belíssimo trabalho em geral.

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    • Oi Isabella, tudo bom?
      Você não imagina como ficamos felizes com o seu comentário! <3
      Felizmente achamos que aos poucos o perfil dos clientes está mudando, cada vez mais gente quer uma casa com alma e que seja "de verdade" né?
      E se pudermos contribuir um pouco com isso, perfeito!
      Obrigada mais uma vez, amamos que você esteja gostando… Beijos

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  3. Curto demais estes projetos, pois sou ligada na história das pessoas, das famílias através do que conservam em seus espaços de moradia. Muito lindo ao entrar em uma sala e sentir a energia de quem usa ou já usou aquelas mobílias , as peças que contam muita coisa. Difícil é entrar em um espaço e sentir que você está em um lugar público, , em um quarto de hotel por exemplo.

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    • Oi Carolina, tudo bom?
      Você disse tudo! Não há nada como chegar em uma casa e, só de ver os espaços, já conseguir entender e sentir um pouco do morador. Também não curtimos casas genéricas, onde tudo é muito sem alma, sabe? Obrigada por ter passado aqui no blog e espero que curta os outros posts também. Beijos!

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Histórias

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