No coração de SP | Capítulo 1

Um apartamento lindo e luminoso na principal avenida de São Paulo

Essa matéria faz parte de uma seção especial do Histórias de Casa chamada ArqTETO. Nela mostramos casas e apartamentos que são considerados ícones da arquitetura brasileira, como um prédio modernista famoso, uma residência com assinatura ou um edifício que marcou época. Além de revelar como cada morador se relaciona com esses espaços, também valorizamos nosso legado arquitetônico. Acompanhe…

Em plena Avenida Paulista, um dos endereços mais importantes e movimentados da cidade, a arquiteta Cecilia Reichstul conseguiu criar um ninho bem aconchegante, surpreendentemente silencioso e que de quebra conta com janelas de ponta a ponta emoldurando as árvores da rua de trás. Além da localização, ela ainda pôde realizar outro sonho: viver em um prédio que é um marco na história de São Paulo. Não à toa, ele se chama Paulicéia.

Quem costuma circular pela região facilmente reconhece a fachada de pastilhas azuis e esquadrias pretas marcada por linhas retas e pela ausência de ornamentos, fortes características do estilo modernista. O que muita gente talvez não saiba é que o terreno na verdade é compartilhado por duas torres diferentes, sendo uma delas voltada para a rua São Carlos do Pinhal. Exatamente no eixo entre o ritmo frenético da metrópole e a calmaria de um bairro antigo, o edifício tem uma portaria de cada lado – para deleite dos moradores, que assim podem aproveitar o melhor dos dois mundos.

Erguido entre 1956 e 1959, o Paulicéia leva a assinatura do francês Jacques Pilon e de Gian Carlo Gasperini, arquiteto italiano radicado no Brasil. Hoje ele é considerado um símbolo da cidade, porém no final da década de 1990 escapou por pouco da implosão – na época a estrutura estava comprometida, com diversas falhas no concreto e outros probleminhas difíceis de resolver. Felizmente os proprietários dos apartamentos decidiram unir forças e investir em uma reforma geral, que revitalizou inclusive o pátio central e os jardins inspirados no trabalho de Burle Marx.

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A relação de Cecilia com o prédio começou em 2007, quando ela comprou uma unidade de dois quartos e iniciou sua própria obra para reformular os espaços internos. Apesar de ter mudado muita coisa e alterado completamente a configuração da cozinha e dos cômodos de serviço, a arquiteta se preocupou em preservar elementos originais da construção: as vigas de concreto, por exemplo, ficaram expostas para que contassem a história dos ambientes e de como eles eram divididos no passado. Com poucas paredes no living e portas de correr que poupam centímetros preciosos, o apê ganhou uma circulação fluida e dinâmica, além de muita iluminação natural.

Ao mesmo tempo em que a moradora aplicou no projeto seu lado racional, considerando o conforto e a funcionalidade, ela também conseguiu inserir personalidade em cada canto do apartamento. Aliás, Cecilia diz que isso é uma das coisas mais importantes em um lar: “Perdi horas de sono pensando na planta dos espaços, na coifa, nos alinhamentos… Fazer casa para os outros é infinitamente mais fácil do que fazer a nossa, mas no fim o essencial mesmo era que ela contasse um pouco sobre nós e nossa trajetória”. Para ela aconchego é uma sensação que te envolve e reconforta, por isso não haveria melhor maneira de conquistá-la do que preencher a decoração com objetos repletos de significado, fotografias e obras que inspiram e presentes oferecidos por amigos e familiares.

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Não é preciso olhar muito para perceber a grande quantidade de móveis, estampas e objetos étnicos espalhados pelos ambientes. A paixão de Cecilia por outras culturas culminou alguns anos atrás, quando ela e o marido Marcos resolveram alugar o apê e passar uma temporada vivendo na China. Eles até chegaram a cogitar outros destinos, como os EUA ou a Europa, mas na época a crise econômica estava começando e esses países deixaram de ser opções seguras. Além disso, o lugar escolhido precisava ser interessante profissionalmente para ambos, então Xangai – que borbulhava com oportunidades bacanas – acabou atraindo o casal e os instigando para essa aventura.

Conhecer a fundo a realidade de um país tão distante foi uma experiência de vida para Cecilia. Ao longo de dois anos e meio ela não só assimilou novas referências arquitetônicas como também descobriu jeitos diferentes de se relacionar com as pessoas. Ainda assim, depois de um tempo o desejo de voltar para casa falou mais alto, porém as lembranças (e muitas peças incríveis) vieram junto na bagagem. O casal trouxe consigo diversos “pedacinhos” da China: o aparador que apoia a televisão na sala de estar; um criado-mudo; mesinhas laterais; vasos de porcelana; pequenas esculturas… Itens afetivos que convivem ainda com recordações de outros cantos do mundo, como Camboja e Mianmar.

A decoração do apartamento também teve a participação da família de Cecilia e Marcos. Grande parte do mobiliário foi herdada por eles e reaproveitada – o sofá, a mesa de jantar e a mesinha de centro pertenciam ao pai da arquiteta, enquanto as cadeiras de madeira eram de sua avó e foram reestofadas com tecidos africanos trazidos por uma amiga.

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Acolhedora, calorosa e coberta de detalhes que nos fazem querer espiar tudo mais de perto, a morada de Cecilia realmente tem o jeito dela. É um lugar despreocupado, naturalmente colorido e despojado na medida certa.  Tem sua dose de arquitetura visceral e um perfume modernista, mas tem sensibilidade de sobra para balancear. É inspiração, é história, é casa!

Continua-final

Fotos por Alessandro Guimarães

Deixe seu comentário 4 Comentários

  1. Morri com as ilustrações dos macaquinhos na parede!!!

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  2. Lindo apartamento, adorei! Amei o pé de maquina ao lado do barzinho, perfeito.

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  3. Gostaria de saber se o apartamento já tinha as vigas com o concreto aparente ou se foram feitas pela moradora. Caso seja o segundo, como foram feitas? acho lindo, mas não sei como seria pra fazer no alto. Obrigada!

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    • Oi Larissa, tudo bom?
      Na verdade todas as vigas do apartamento já existiam, porém estavam “ocultas” pelas paredes. Com a reforma as paredes saíram e as vigas — que nunca podem ser removidas — apareceram. A moradora, ao invés de pintar as vigas de branco, decidiu descascá-las até mostrar o concreto da estrutura.
      Ficou lindo né?

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Histórias

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